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Quatro décadas de computação moderna: uma "retrospectiva para o futuro"

Parte I de uma série de duas partes


Bill Howard, Ex-diretor de Informática e Assessor do CEO da Sun Microsystems

O terceiro trimestre de 2005 está prestes a ser encerrado, e junto com ele estou encerrando os meus 42 anos no mundo da informática. Nos últimos 21 anos, liderei organizações de TI em três grandes empresas globais. No final de setembro, vou me aposentar da Sun para poder passar mais tempo com a minha família e correr atrás dos meus sonhos que na maior parte ficaram um pouco de lado durante a minha atuação em TI.

Este artigo de duas partes será meu último e derradeiro editorial como patrocinador executivo do Inner Circle. Gostaria de dividir com você algumas observações que faço sobre minha longa carreira na informática. Vou resumir a Parte 1 identificando alguns problemas que estão se agravando e que o setor de TI precisa resolver. Na Parte 2 do próximo mês, farei alguns prognósticos para o setor.

Para ver o futuro com mais clareza, eu sempre achei interessante e útil tentar entender o passado. Uma rápida retrospectiva ajudará a definir o cenário para algumas previsões sobre o futuro da TI.

Foi uma grande aventura trabalhar com pessoas inteligentes e dedicadas para aplicar a tecnologia dos computadores e das comunicações na abordagem dos problemas de negócios globais. A primeira observação que gostaria de dividir é esta: em quatro décadas da minha vida profissional, cada fase da computação moderna pareceu uma novidade, mas em um nível mais profundo, muita coisa permaneceu igual.

Quando eu comecei com os computadores em 1963, o setor era jovem, impetuoso e inovador e crescia a uma taxa anual de 15 a 20%. Apesar do crescimento mais lento que impera no setor, ainda há grandes oportunidades pela frente para aqueles que inovarem na tecnologia, desenvolverem novos modelos de negócios ou fornecerem serviços de qualidade.

É impossível tratar de todos os aspectos e nuances do mercado em uma carta sucinta, por isso tentarei captar a essência de cada ciclo, ou era, da informática de um ponto de vista prático. Vamos recapitular as grandes ondas de inovação da informática corporativa: quais foram as principais tendências e eventos que viraram marcos?

As ondas na era do computador moderno são definidas, grosso modo, como gerações baseadas na tecnologia subjacente:

  • Primeira geração (tubos a vácuo) – de 1946 a 1958
  • Segunda geração (transistores) – de 1959 a 1964
  • Terceira geração (circuitos integrados) – de 1965 a 1970
  • Quarta geração (microprocessador) – de 1971 até o presente

O ENIAC, o Univac e o início de uma era

O uso das máquinas para fazer cálculos remonta a no mínimo dois milênios, e sua história é riquíssima. Mas só no início da década de 1950 é que os computadores programáveis para computação de finalidade geral começaram a ser amplamente adotados em grandes empresas.

Há um consenso geral de que o primeiro computador eletrônico programável de finalidade geral foi o ENIAC, que apareceu no final de 1945 ou início de 1946. Ele era usado na balística e análise de energia atômica. A máquina equivalente sucessora se chamava Univac, que foi vendida ao U.S. Bureau of Census no início de 1951. Esse computador deu início à era da informática corporativa de finalidade geral.

Esses primeiros computadores eram gigantes e complexos. As pessoas que os usavam normalmente eram cientistas e engenheiros brilhantes. A segurança e o suporte eram relativamente fáceis porque somente algumas pessoas estavam envolvidas na construção, operação e manutenção dos sistemas.

Grandes computadores, grandes negócios

Ao longo das décadas de 1950 e 1960, a plataforma de hardware predominante era o mainframe – que era um computador enorme. Muitos fabricantes dos EUA, da Europa e do Japão estavam no ramo dos computadores de finalidade geral, mas os concorrentes predominantes eram conhecidos no setor como "a IBM e os sete anões" ou posteriormente como "a IBM e o 'BUNCH'" (das iniciais dos nomes das empresas: Burroughs, UNIVAC, NCR, CDC e Honeywell).

A IBM conquistou uma vantagem de mercado inicial como líder na computação corporativa devido à sua forte posição no ramo de máquinas de contabilidade eletrônicas. Com sua legião de máquinas de cartão perfurado nos departamentos de contabilidade das grandes corporações, a IBM conseguiu se ramificar rapidamente. O trabalho da IBM no sistema de defesa aérea SAGE [nos EUA] e posteriormente no sistema SABRE da American Airlines proporcionaram a ela outra vantagem no ramo de computação de finalidade geral, que crescia rapidamente.

À medida que o setor crescia, tornou-se necessário contratar e treinar uma multidão de pessoas para vender e suportar o computador. Como não havia programas universitários oficiais, a seleção e o treinamento de pessoas para trabalhar no setor praticamente era de responsabilidade dos fabricantes.

Os recrutas precisavam prestar uma espécie de vestibular chamado PAT (teste de aptidão como programador). Os recrutas aprovados em geral eram cientistas, engenheiros, matemáticos, lingüistas e músicos – aqueles que já eram versados em representações simbólicas e/ou raciocínio quantitativo.

A segurança e o suporte, embora cada vez mais complicados, ainda eram gerenciáveis porque a população de usuários era relativamente pequena e poucas pessoas tinham tempo ou disposição para parar intencionalmente os sistemas.

Por volta de 1964, a IBM havia introduzido a família System/360 de computadores – resultado de uma estratégia arriscadíssima para a empresa e que definiu o padrão para o restante da era dos mainframes. À época do anúncio do S/360, eu era estagiário na IBM e ajudava na logística do grande evento para clientes na região da baía de São Francisco. O S/360 se baseava em circuito integrado e possibilitava uma maior miniaturização do computador.

Compartilhamento de tempo e minicomputadores

Durante a década de 1960, inicialmente o compartilhamento de tempo foi adotado pelos engenheiros, cientistas e analistas financeiros. Foram experimentados outros tipos de uso mais amplos pelos primeiros adeptos, mas o surgimento dos minicomputadores acabou de vez com a era do compartilhamento de tempo devido ao alto custo das comunicações, à capacidade limitada dos dispositivos terminais e à lentidão da velocidade das linhas.

As sementes de uma revolução dos minicomputadores foram plantadas logo no início dos anos 1960, quando a Digital Equipment Corporation lançou o PDP-1 baseado em transistores, voltado a computação técnica para engenheiros e cientistas. O PDP-1 foi sucedido pelo PDP-5, este pelo conceituadíssimo PDP-8 em 1965 e este pelo PDP-11 em 1969.

Os departamentos já estavam começando a buscar autonomia das organizações de mainframe altamente centralizadas e caras (departamentos de PED – processamento eletrônico de dados – e MIS – sistemas de informações de gerenciamento). Os departamentos de engenharia, de manufatura e científico estavam começando a ficar de olho em computadores velozes e baratos que poderiam ser dedicados a organizações que os usariam para uma única finalidade. Com a chegada do circuito integrado, um novo grupo de concorrentes apareceu no cenário. Mais de 100 empresas entraram na disputa dos minicomputadores no início da década de 1970.

Os minicomputadores continuaram crescendo em popularidade durante a década de 1970 e o início dos anos 1980, enfrentando a grande base instalada de mainframes e também abrindo novas áreas de aplicação para os computadores compartilhados, como o processamento de texto.

Durante a era dos minicomputadores, as escolas e universidades começaram a fornecer uma ampla variedade de cursos e graduações relacionados ao setor de informática para acompanhar seu ritmo veloz de expansão.

Os desafios da segurança e suporte, apesar de maiores devido ao uso mais difundido dos computadores, ainda assim eram gerenciáveis. Basicamente as técnicas eram extensões e refinamentos com base na experiência dos mainframes.

A revolução dos minicomputadores ficou fadada ao mesmo destino dos mainframes quando aquele setor continuou apegado por tempo demais aos modelos de negócios bem-sucedidos ou fracassou totalmente em enxergar o poder do próximo ciclo da informática – a era dos PCs. A World Future Society divulgou que Ken Olsen, CEO da Digital Equipment, teria afirmado que "Não há motivo para uma pessoa ter um computador em casa".

A era dos PCs e a computação em rede

Mais ou menos no final da década de 1970, a comunidade de usuários corporativos estava novamente contrariada e disposta a se livrar do caríssimo e centralizado "mainframe" ou do "computador de departamento" que precisava ser compartilhado com os outros. Com o advento do microprocessador, do PC e das redes locais, cada usuário poderia ter seu próprio computador. Essa tendência foi reforçada pelo fato de que um computador em casa conectava o ambiente de trabalho ao lar como jamais acontecera.

O advento do microprocessador também causou a estréia da estação de trabalho em rede. A Sun Microsystems foi fundada em 1982 para fornecer estações de trabalho técnicas de alta performance, conectadas em rede e baseadas em padrões abertos. O lema da Sun nos últimos 23 anos é simples, mas poderoso: “The Network is the Computer” (A rede é o computador).

À medida que a popularidade dos PCs e das estações de trabalho cresciam exponencialmente, tornava-se um grande problema o desafio de treinar e suportar os usuários, bem como lhes oferecer um ambiente de computação seguro. Agora não eram mais poucos milhões de usuários, mas sim centenas de milhões – sendo alguns bastante avançados, mas muitos deles leigos e inexperientes. Ambas as extremidades do espectro de usuários apresentavam enormes desafios para os fabricantes, os prestadores de serviços e os próprios usuários de computadores. Na ponta altamente avançada, tínhamos vírus, vermes e roubo de identidade, enquanto na outra havia a demanda para simplificar a experiência dos usuários.

A era do microprocessador e da Internet (que na realidade começou no final dos anos 1960 e início dos 1970, mas explodiu mesmo nas décadas de 1980 e 1990 – nos EUA) foi muito bem documentada pelos meios de comunicação de massa e não pode ser devidamente abordada nesta pequena carta.

Agora estamos no ponto em que um servidor em um chip é uma realidade, o software livre está sendo adotado com rapidez e os custos de comunicação continuam caindo, enquanto a largura de banda aumenta. Além disso, os limites entre trabalho e vida privada continuam ficando mais tênues, e hoje as ferramentas de tecnologia necessárias para trabalhar em cada ambiente são praticamente as mesmas.

Apesar das conquistas, ainda resta muito a ser feito

A maior parte desta carta tratou da evolução dos computadores do ponto de vista do hardware. Seria interessante analisar outros aspectos da informática da mesma maneira: o impacto das telecomunicações nos computadores e vice-versa; a evolução do software que passou das linguagens de máquina para os Web Services Java; o progresso do modelo personalizado para a compra de aplicativos individuais, para a compra de uma suíte, até chegar à compra de software como um serviço; a mudança do papel do profissional de TI na empresa; e a promessa de que a Internet pode servir de ponte para a inclusão digital.

Os envolvidos no setor tiveram muitas conquistas, mas ainda resta muito a ser feito. Desde o nascer da era da informação no início dos 1950, os visionários achavam que a computação corporativa era um sistema de informações de gerenciamento totalmente integrado. A promessa de cada onda de tecnologia era que os executivos, os gerentes, a diretoria e o chão-de-fábrica teriam igualmente informações praticamente em tempo real disponíveis para realizar o trabalho com extrema eficiência. Passados 50 anos de progresso e experimentação, ainda estamos longe de realizar essa visão.

Na empresa, ouço com bastante freqüência lamentos do tipo "Estou atolado de dados, mas não tenho as informações de que preciso para trabalhar com eficácia". Ainda há desafios tecnológicos em termos de facilidade de uso, confiabilidade e qualidade que precisam ser superados. Entretanto, os problemas políticos e organizacionais internos continuam sendo um desafio maior para se realizar a visão de um sistema totalmente integrado que forneça as informações certas, e não meros dados (por exemplo, o equilíbrio entre centralização e descentralização; a autonomia e a intercooperação/intercolaboração em nível organizacional; a criatividade e os padrões/processos, só para citar alguns exemplos).

Os pioneiros desse setor trabalharam duro para preparar o cenário de inovações constantes no fornecimento e uso da tecnologia. Aqueles que continuam esse trabalho precisam analisar os sucessos e fracassos desse jovem setor para realizar a visão inicial.

Prognósticos

Para os profissionais de TI, apesar de cada fase anterior possivelmente ter sido encarada como uma "grande novidade", os princípios fundamentais continuaram os mesmos. A tecnologia raramente é a essência de um problema ou de sua solução. Recapitulando um de meus boletins anteriores, chamo a atenção para a fórmula Q*A=E. Ou seja:

A (E)ficácia de qualquer solução é o produto de sua (Q)ualidade pela (A)ceitação do usuário

Isso era válido em 1964 quando eu era estagiário na IBM e continua válido em 2005 quando decido me aposentar da Sun Microsystems. As qualidades de liderança humana e nos negócios que construíram um verdadeiro líder de TI nos anos 1960 continuam praticamente as mesmas hoje

Por isso, concluo esta carta com algumas considerações que sinto serem as prioridades que o setor precisa abordar para melhorar a qualidade da experiência do usuário:

  • Facilidade de uso: a informática ainda é extremamente complicada para o usuário médio
  • Modelos de preços: a complexidade que só um profissional de marketing adora
  • Serviços e suporte: o uso equivocado da tecnologia para isolar a equipe de suporte do cliente está aumentando (perda do contato humano)
  • Segurança: o desafio é grande e não pára de crescer
  • Privacidade: é preciso fazer mais para proteger os direitos de privacidade das pessoas

Esses problemas dizem respeito principalmente aos fornecedores de tecnologia da informação para milhões de consumidores, mas também se aplicam à computação corporativa. Como mencionei antes, os limites entre trabalho e vida privada continuam ficando mais tênues rapidamente, e as tecnologias que suportam cada situação estão mais parecidas a cada dia que passa.

Aguarde para o próximo mês a segunda parte desta carta, que fará alguns prognósticos com base nas observações do passado.

Bill Howard
Ex-diretor de Informática e Assessor do CEO
Sun Microsystems, Inc.
cio@sun.com

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