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Cinderela e Solaris
Uma conversa (aberta) com Hal Stern
Enquanto o novo responsável tecnológico chefe da Sun Software, Hal Stern desempenha um papel vital no desenvolvimento e execução das estratégias da Sun para projectos de fonte aberta. Nesta entrevista, ele explica a sua mudança de CTO da Sun Services, o papel cada vez mais importante da fonte aberta na Sun – e o que a fonte aberta tem em comum com a Cinderela. Inner Circle (IC): Mudou recentemente de cargo na Sun de responsável tecnológico chefe na Sun Services para responsável tecnológico chefe na Sun Software. Porquê a grande mudança? Hal Stern (HS): Não acredito que exista uma enorme diferença tecnológica entre serviços e software. Durante os últimos dois anos, os serviços e software da Sun têm trabalhado em estreita colaboração em tudo desde a arquitectura de sistemas de rede de clientes (como fidelizamos os sistemas clientes à Sun) até a diagnósticos de software (o modo como reunimos informação sobre um determinado software que pode ter falhado e sobre o que deve ser feito). Existe também uma sobreposição entre os serviços e o software no que diz respeito à qualidade do software, à qualidade geral dos sistemas e à gestão de nível de assistência técnica. De facto, grande parte dos programas mais recentes que estava a tentar fomentar enquanto CTO de serviços – em termos de diagnósticos, assistência para compromissos personalizados e a experiência geral do cliente com a Sun – eram na sua grande maioria governados pelo software. IC: Onde é que a fonte aberta se enquadra na Sun segundo o seu ponto de vista? HS: Acho que é realmente importante esclarecer este mito de que a fonte aberta é um produto. Quando as pessoas falam sobre nós, dizem: “Vão disponibilizar em fonte aberta o Solaris ou abriram a fonte do que era o Access Manager”. Esses são produtos disponíveis enquanto distribuições comerciais da Sun, e são agora também projectos de fonte aberta. Isto permite a outras pessoas construir projectos em torno destes -- a reincorporar o código de fonte em algo diferente. IC: Entendido. Então, qual é a estratégia da Sun para projectos de fonte aberta? HS: A razão pela qual a fonte aberta é uma parte vital da nossa estratégia é o facto de que atingimos uma conjuntura na economia da actividade de software a nível mundial. A mudança crítica é que já não se trata da distribuição de software e da compensação pelo software ocorrerem ao mesmo tempo. Antigamente, dirigia-se à sua loja de electrodomésticos ou de informática local e comprava um produto de software -- quer fosse um jogo, um CD para colocar no PC, um CD de música, ou um DVD. De qualquer modo, quando comprava o software adquiria os bytes e pagava-os ao mesmo tempo. Esse modelo funcionou muito bem quando havia apenas um valor único e diferenciado nesses bytes. IC: O que é que mudou? HS: Hoje em dia, existe uma quantidade enorme de trabalho a ser realizado naquilo a que chamamos as camadas das plataformas -- as camadas do sistema operativo, as camadas de virtualização, e as camadas de serviços Web. A distribuição e a compensação estão a ficar divididas. A distribuição é algo que está a ser impulsionado pela fonte aberta. Quer seja uma distribuição Linux, uma distribuição OpenSolaris, ou a distribuição de um servidor de aplicação, estas distribuições criam comunidades grandes e vibrantes. As pessoas estão a adicionar às áreas públicas comuns em torno do software. A distribuição, na realidade, fornece as ferramentas básicas para as áreas públicas comuns. IC: Muito bem. Estou a ver como a distribuição mudou, mas e a compensação? HS: A parte da compensação é sobre criar valor em cima destas distribuições --- e depois cobrar dinheiro pelas melhorias. Por exemplo, alguns dos nossos conjuntos Java Enterprise System são diferenciados – são únicos da Sun, pelo que podemos cobrar dinheiro por eles. Quando vemos algo como a gestão de ciclo de vida de informação ou de identidade federada, esses são produtos que são construídos em cima de uma plataforma comum. Podemos cobrar dinheiro por algo que é diferenciado, mas ao mesmo tempo, também queremos criar e aproveitar a grande quantidade de poder intelectual e inovação que está a decorrer ao nível da camada da plataforma. IC: Como é que o novo alinhamento organizacional da Sun ajuda a criar valor acrescido para projectos de fonte aberta? HS: O que estamos a tentar fazer neste caso é ser bastante práticos sobre onde o valor é criado, onde existe um valor único que alguém procura, e onde a Sun irá beneficiar a comunidade e onde a comunidade irá beneficiar com a Sun. Penso que é uma mudança muito grande. A fonte aberta é importante para nós porque nos encontramos na vanguarda desta mudança. Não é algo de novo para nós: Começámos a analisar a economia em mudança há já alguns atrás quando mudámos o modelo de preços para o Java Enterprise System -- de CPU, por utilizador, ou de qualquer outra medida difícil de medir para o preço por empregado. IC: Como é que a fonte aberta afecta os concorrentes da Sun? Acredita que estes estão a ser persuadidos para contribuir para a missão? HS: Cada um dos nossos concorrentes, até certo ponto, tem participado em vários projectos de fonte aberta. Isto permite-lhes a eles, assim como à Sun, ser bastante claros sobre onde é que oferecem valor. O que estão eles a fazer acima do nível da plataforma? E o que estão eles a fazer para serem inovadores ao nível da plataforma? Pessoalmente, espero que vejamos muito menos extensões proprietárias ao nível da plataforma. Espero que esses sejam os tipos de projectos a serem realizados em comunidades de fonte aberta. IC: O que pensa do quadro apresentado pela Sun do futuro da fonte aberta? HS: Acredito que a fonte aberta foi apresentada -- pelo menos da perspectiva da Sun -- como algo deste e/ou deste tipo. Ou é Solaris ou é Linux. Ou é Red Hat ou é Solaris. É renovar a licença pública ou é a licença CDDL. Não é deste modo que funciona a fonte aberta. A fonte aberta é em grande medida a pluralidade de comunidades. A fonte aberta pode ser uma situação de ambos/e mais algo. Este é um caso em que suportamos o Linux, suportamos o OpenSolaris, e suportamos o Solaris comercial. Se alguém tiver uma ideia brilhante para uma inovação no sistema operativo, pode acrescentá-la ao OpenSolaris, pode acrescentá-la ao Linux, e pode acrescentá-la a outro veículo apropriado. Não acreditamos que qualquer dos modelos de licenciamento ou colecções de projectos esteja errado ou incorrecto. IC: Quais as influências na Sun em que se apoia o vosso “Open Source Office”? HS: O “Open Source Office” faz parte de um esforço maior para fomentar um maior sentimento de comunidade no âmbito da engenharia de software na Sun. Actualmente temos processos de governação de nível absolutamente mundial. Se observarmos o modo como concebemos o software, revermos a concepção, e revermos o modo como o software é fabricado -- os resultados estão à vista. Por exemplo, analisemos as versões do Solaris e a sua estabilidade ao longo do tempo: Isto reduz o volume de trabalho que os nossos ISV (vendedores independentes de software) têm de realizar comparado com ter de criar uma porta completa ou ter de lidar com alteração de interfaces. Não minimizando de modo algum o que os nossos ISVs fazem, mas vejamos o modo relativamente fácil com que a Sun cria coisas para estes para actualizar cada versão do Solaris. Esse é o resultado directo dos nossos processos de governação, que gerem o modo de como tornar os nossos produtos mais duráveis e sustentáveis. IC: Como é que estas influências comunicam o trabalho do “Open Source Office”? HS: Os desafios são: Como transformamos os nossos produtos em sistemas, e como os nossos produtos interagem enquanto parte de um sistema? A fonte aberta é um sistema. É um sistema de comunidade de programadores, e um sistema de comunidades de consumo. Um dos objectivos para o “Open Source Office” é o de tentar alcançar a consistência nos mecanismos que utilizamos. Não estou a dizer que tem de existir apenas um mecanismo único, uma única maneira de disponibilizar um projecto em fonte aberta, ou um único esquema de licenciamento, mas necessitamos de ter consistência no modo como realizamos essas decisões, assim como temos de ter consistência nos nossos objectivos. Se decidirmos disponibilizar algo mediante uma licença GPL, iremos fazê-lo porque pretendemos insistir que as contribuições sejam devolvidas à comunidade. Se disponibilizarmos algo sob uma licença CDDL, vamos fazê-lo porque queremos ter a certeza que existe uma oportunidade de alguém acrescentar as suas próprias extensões sem ter de ser forçado a partilhá-las. IC: Como medem o valor da fonte aberta? HS: Existem muitas maneiras de medir o efeito e a profundidade de uma comunidade de fonte aberta. Podemos ver o modo como as pessoas escrevem sobre nós, onde surgimos em blogs tecnológicos, em quantas pesquisas no Google é que aparecemos, e quantas pessoas estão a falar sobre nós nos blogs. Ou podemos examinar o número de membros activos existente na comunidade e o número de projectos que resultaram em código contribuído. Para mim, uma das coisas mais fascinantes sobre o OpenSolaris é que no espaço de um mês após o Solaris ter sido tornado público e do código ter sido disponibilizado, tinhamos um projecto que foi colocado na sala da fonte do Solaris de versão comercial. IC: Qual era esse projecto? HS: Foi extraordinário. Era um pedido de uma melhoria, algo que tinha estado a incomodar um determinado programador durante muito tempo, e que ele deitou mãos ao trabalho e arranjou. Para mim isso é uma grande afirmação. É assim que a fonte aberta é suposto funcionar: Se algo no código está a incomodar, se existe algo que queremos solucionar e é óbvio que irá beneficiará todos, então podemos arranjar a solução, e os bytes estão de novo em distribuição. A seguir, essa solução do OpenSolaris desce sob a forma de cascata até à versão comercial do Solaris, e a solução torna-se parte da base principal. Existe outra medida que podemos adoptar para mostrar que existe valor em criar distribuições e que existe valor em trabalhar em estreita colaboração com a comunidade de fonte aberta. IC: Ao que parece procurar novas maneiras de medir o valor é também um componente fulcral para o êxito do “Open Source Office”? HS: Parte do “Open Source Office” é assegurar que estamos a medir as coisas certas. De facto, queremos continuar a investir e a evangelizar aquelas coisas que não têm fluxos de rendimento claros, uma vez que, em alguns casos, é mais importante encontrar projectos promissores do que ter fluxos de rendimentos claros. Se não existirem boas distribuições e não houver uma boa permeabilidade, é muito mais difícil vender melhorias que representam valor acrescido à plataforma de software. É muito mais fácil vender um contrato de assistência técnica a alguém que está a executar o software do que a alguém que não tem a menor ideia de se pretende trabalhar com o Solaris. Fomentar a preponderância do Solaris irá ajudar as nossas outras actividades. IC: Enquanto CTO de software, é sua a decisão sobre qual o software que a Sun irá disponibilizar em fonte aberta? Como são tomadas essas decisões? HS: É uma excelente questão porque, novamente, penso que existe alguma preocupação sobre declarações de que vamos disponibilizar tudo em fonte aberta. Pessoalmente, acho que existe uma palavra em falta nessa declaração: Vamos disponibilizar em fonte aberta tudo o que temos actualmente. A palavra que falta na declaração é significativo de que a engenharia de software não é estática. Estamos continuamente a inovar o conjunto de produtos disponibilizado. Há dois anos atrás não existia o Java Enterprise System. Antes disso não existia nenhum sistema para gestão de identidade. Se analisarmos os problemas em que pensamos actualmente: segurança, identidade federada, e gestão de ciclo de vida de informação. Ou, sobre o modo como continuamos a construir conjuntos de comunicação de nível mundial. Ou, sobre como a responsabilidade do software e a disponibilidade do mesmo se apresentarão no futuro. São todas estas as áreas em que estamos a inovar. São todas áreas em que valor pode ser acrescentado ao software que podemos ou não disponibilizar em fonte aberta. IC: Como é tomada a decisão de disponibilizar em fonte aberta algo criado? HS: O problema de decidir sobre disponibilizar algo em fonte aberta prende-se com varias questões: Existe valor para a comunidade? Irá existir uma comunidade que irá acolher esse software e que irá querer trabalhar nele? Existe uma demarcação bem clara, entre onde existe valor acrescentado e a plataforma em si? Se analisarmos o SSO (ponto único de entrada) aberto, por exemplo, é bastante claro que um ponto único de entrada é algo que está a tornar-se aceite enquanto parte essencial de praticamente todos os produtos. Se o nosso objectivo é o de fomentar a interoperabilidade, para tornar mais fácil às pessoas acrescentar extensões a outras fontes de informação do utilizador, a melhor maneira de o fazer é o de abrir o código fonte e deixar as pessoas acrescentar a este. Do mesmo modo que foi escrito código inútil para dispositivos no mundo Linux porque as pessoas acrescentaram a essa base, nós devemos fomentar a interoperabilidade através da abertura do código fonte para a camada de ponto de entrada único. Este é um exemplo evidente de onde faz sentido abrir uma camada, visto que vamos conseguir a devolução das coisas certas por parte da comunidade. IC: Existem outros factores na decisão de disponibilizar software como fonte aberta? HS: Sim. Analisamos o que constitui parte da plataforma, o que constitui valor único real adicionado pela Sun, e onde é que vamos adicionar valor ao conjunto completo. Só porque algo é apresentado como fonte aberta não significa que paramos de inovar. Continuamos a trabalhar em coisas como a fiabilidade e a qualidade. E essas melhorias podem fomentar outras partes da nossa actividade como, por exemplo, serviços e oportunidades para programadores. Penso que existe ainda um enorme volume de interiorização por acontecer. Parte da questão maior sobre o modelo de fonte aberta reside sobre o facto de onde irá ocorrer a inovação inicial? Onde irá surgir a próxima ideia realmente brilhante? E, ao mesmo tempo, onde é que vamos ter um aumento de inovação? Acredito que o que iremos ver é que as empresas com grandes esforços de I&D em software -- Sun, Microsoft, Oracle, e IBM, assim como as grandes universidades -- irão continuar a ter a inovação inicial. Escrevi uma entrada num blog sobre inovação inicial versus aumento de inovação. IC: O sua opinião é que a inovação inicial irá continuar a acontecer em locais que têm os recursos para realizar a investigação e desenvolvimento? HS: Irão ocorrer enormes volumes de inovação inicial, e eu diria que a grande parte desta, não toda, mas a sua grande maioria irá acontecer em locais com grupos de I&D financiados. Ao mesmo tempo irá registar-se um enorme volume de aumento de inovação – pessoas a adicionar à base, evoluindo de modo crescente a base, reparando-a, estendendo-a e assim por diante. Isto irá acontecer através das comunidades de fonte aberta. O desafio é determinar o que esperamos obter pelos nossos dólares investidos em I&D. O que pensamos que irá permitir à Sun criar uma vantagem em relação à concorrência? E, consequentemente, o que fazemos enquanto parte de um projecto de fonte aberta, e o que fazemos enquanto parte de um produto de software que inovamos e vendemos? Para além isso, existe um ciclo de vida, e não é pelo simples facto de que começamos a vender algo que com o decorrer do tempo isso não se possa transformar em algo que possamos disponibilizar como fonte aberta. IC: Existem mais interpretações incorrectas sobre a fonte aberta que pretende esclarecer? HS: Sim. Só porque algo entrou nas áreas públicas criativas, ou porque entrou para o domínio público, isso não significa não existe mais valor que lhe possa ser acrescentado. O melhor exemplo que posso apresentar é proveniente dos contos de fadas. Quer seja dos contos dos irmãos Grimm, das fábulas de Aesop, ou das histórias de Hans Christian Andersen, estas são do domínio público. Estes sobreviveram muito tempo após a morte do seu autor. Todos dizem: “OK, tudo bem, consegue-se fazer dinheiro com esses trabalhos hoje em dia?” Quer seja a Cinderela, Caracóis de Ouro e os Três Ursinhos, Bela e o Monstro, ou Branca de Neve e os Sete Anões – são todos contos que se encontravam no domínio público. Estão o mais próximo do software de fonte aberta que é possível conseguir a partir de uma perspectiva artística. Pelo que se formos Walt Disney e colorirmos a história, acrescentarmos os personagens, tornarmos o conto acessível, e criarmos uma narrativa em torno deste, de repente abrimos toda essa história a todo uma nova geração de pessoas. IC: Assim sendo, acrescentar valor faz parte de um ciclo virtuoso? HS: Hoje em dia existe muito software de fonte aberta, é disponível gratuitamente, mas o valor não fica por aí. É o que se faz com ele, quais as oportunidades que se criam com ele, e quais os outros tipos de serviços que se constrói a partir ele. Do meu ponto de vista, não se pode dizer: “Bem, está disponível gratuitamente, é porque já não tem qualquer valor”. A fonte aberta é um ponto de partida. O que fazemos com ele é a diferença entre um conto de fadas sobre a Cinderela e um DVD que queremos ver com os nossos filhos. |
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